A tecnologia facilitando a ação coletiva

Me emocionei profundamente com a palestra de Jeniffer Pahlka, que coordena uma organização chamada Code for America. A CFA recruta desenvolvedores para passarem um ano em alguma cidade com a qual ela tenha fechado um contrato. Durante esse ano, os desenvolvedores trabalham em sistemas, sites e aplicativos do governo, de serviços a população. Os contratos e os serviços prestados pela CFA custam, sempre, menos do que custariam se fossem feitos pelo processo de ‘procurement’ – a nossa velha conhecida licitação.

O projeto parte do princípio que serviços de tecnologia de informação do governo não têm que custar mais do que custaria o mesmo serviço para a iniciativa privada, e precisam ser tão simples, agradáveis e fáceis de usar quanto qualquer produto online que utilizamos hoje.

Afinal, por que os sites de governo são tão feios e com péssima usabilidade? Bem, no Brasil a resposta é:

– A burocracia dificulta a contratação de profissionais e empresa. Aliás, a burocracia dificulta tudo.

– O processo licitatório é emperrado e não se baseia nos melhores critérios – menor preço sendo a regra para licitações de internet. Isso não garante a qualidade da entrega.

– E mesmo menor preço sendo o critério, os projetos de internet para o governo sempre custam muito mais caro do que projetos semelhantes normalmente custaria para a iniciativa privada.

Os desenvolvedores da CFA enfrentam problemas típicos de serviço público, como precisar de um cartão de crédito para contratar um servidor na nuvem. Na burocracia institucional, de onde tirar um cartão de crédito?

Eles trabalham em projetos como um site para que os pais possam escolher a escola pública mais adequada para seus filhos, um aplicativo para localizar hidrantes escondidos pela neve e “adotar” um hidrante e coisas do tipo. Ou seja, percebe-se que o ‘governo’ engloba os projetos, mas deixa os cidadãos como protagonistas. Isso reflete a ideia que Jennifer tem do que é o governo, com a qual eu muito me identifico: o governo somos nós. “Government is what we do together”.

Para Jeniffer, achar que votar é o suficiente em termos de engajamento político é como querer reformular um site mudando apenas o tipo de fonte e as cores das páginas… É preciso se engajar nas bases do sistema e tomar para si a responsabilidade. O trabalho da CFA é facilitar a ação coletiva através da tecnologia, e governo, na visão da Jennifer, é uma ‘plataforma’ – o que coloca as pessoas como protagonistas. Sem essa de esperar que ‘o governo’, entidade fora de mim, faça alguma coisa. “Government is a plataform for citizens helping themselves and each other. We are not going to fix government unless we fix citizenship”.

Não é lá fora, é aqui dentro. Não é trabalho dos outros, o assunto é comigo mesmo. Viva a Jennifer.

 



One thought on “A tecnologia facilitando a ação coletiva

comente