Dicas para testes de usabilidade com deficientes auditivos e visuais

Teste deficiente visual

Teste deficiente visual A Saiba + realizou recentemente um estudo de usabilidade com deficientes visuais e auditivos. Como não somos uma consultoria especializada em acessibilidade, o foco da pesquisa era checar como esses dois públicos, bem diferentes entre si, navegavam no site alvo do estudo: quais as barreiras, dificuldades e oportunidades de melhoria;  enfim, um teste de usabilidade como qualquer outro.

Entretanto, ao começar a preparar o estudo, percebemos que essa pesquisa tinha algumas peculiaridades com as quais não estávamos acostumados a lidar. Neste post, a arquiteta de informação e analista de usabilidade da Saiba + Carolina Michelassi conta um pouco da experiência, com o objetivo de ajudar outros profissionais da área que venham a fazer trabalhos semelhantes.

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“Você está entendendo o que ele está dizendo, tão rápido?!” Eu pergunto, admirada, para a participante enquanto ela ouve o leitor de telas falando em voz alta todos os textos, menus e links da página, em uma velocidade absurdamente alta. Já tinha lido que os deficientes visuais conseguem ouvir muito mais rápido, mas ainda assim fiquei impressionada, pois a princípio não dá pra entender praticamente nada do que está sendo dito! Olha só:   [youtube id=”4vCTgEc_Oro” width=”550″ height=”300″] Este é só um exemplo para mostrar como precisamos nos preparar de forma completamente diferente para um teste de usabilidade e acessibilidade com participantes com deficiência. Como nunca tinha feito um teste deste tipo, comecei lendo um caso prático de um artigo testando o site da Receita Federal, por indicação do Vagner Santana, para entender inicialmente como seria. Depois encontrei o guia online para realizar testes de usabilidade com usuários com deficiência, do livro “Just Ask: Integrating Accessibility Throughout Design”, e todo o processo se tornou muito mais claro: ele possui instruções detalhadas desde o planejamento, recrutamento, condução do teste, até a redação do relatório. Esse já é um ótimo ponto de partida para quem quiser se aventurar por essas áreas, mas compartilho abaixo um pouco mais sobre como foram os testes na prática!

 

Participantes com deficiência visual

A primeira diferença deste teste em relação aos que a costumamos fazer foi o local: fomos até a casa de cada participante, ao invés de usar o nosso laboratório aqui na Saiba +. Isso foi necessário para garantir um contexto de uso mais real dos sites, pois cada usuário está acostumado com um determinado software assistivo (como os leitores de tela Jaws e NVDA e o ampliador de telas Magic), instalado e configurado em seu computador conforme suas preferências, algo difícil de simular no laboratório. A desvantagem dessa decisão é que não pudemos levar mais analistas ou clientes para assistir os testes, além de não sabermos como seria o ambiente, o computador ou a conexão com a internet do entrevistado, para conseguir gravar o vídeo da sessão com qualidade.  No começo, minha maior insegurança foi sobre dizer ou fazer algo errado, não saber lidar com naturalidade com as diferenças ou como agir em determinada situação que fosse nova para mim. Neste sentido, além do guia já citado do “Just Ask”, o texto do “Bengala Legal – Como lidar com pessoas com deficiência”  foi muito útil. Seguem alguns destaques dele que confirmei durante as entrevistas:

  • Linguagem corporal, como gestos ou sorrisos simpáticos, que estamos tão acostumados a usar, não funcionam! É necessário aprender a transmitir tudo verbalmente;
  • Ninguém vai se ofender se você usar o verbo “ver”. Todo mundo diz em sentido figurado “deixa eu ver aqui o que eu acho…”);
  • Você pode oferecer ajuda, por exemplo, para conduzir a pessoa até outro local, mas ela pode preferir se virar sozinha e recusar;
  • É preciso explicar o que você está fazendo e avisar quando alguém entra ou sai da sala, pois tudo gera sons que muitas vezes ficam sem contexto. É interessante como nessas circunstancias começamos a prestar muito mais atenção na audição e a ter uma percepção diferente da situação.

As pesquisas iniciais alertaram também para a necessidade de se familiarizar antecipadamente com um leitor de telas, para não sermos pegos totalmente de surpresa pela novidade e ficarmos perdidos durante a sessão, então li mais a respeito na página de Tecnologias assistivas do Acessibilidade Legal, instalei o NVDA na minha máquina e fiz alguns testes. A escolha do software para gravar a tela durante a sessão foi a nossa maior dificuldade: não podíamos instalar nada no computador do participante, pois havia risco de conflito com o leitor de telas, então o Morae foi descartado. A conexão com a internet podia ser ruim, então não dava para usar GoToMeeting ou Join.me para compartilhar a tela. Tivemos então que recorrer a uma versão portable do Camtasia, mas ela era muito pesada e em alguns casos chegou a atrapalhar o teste. Nosso plano B na hora foi usar um notebook de apoio para gravar a webcam, apontada para a tela do participante e captando o áudio (a voz do participante e as falas do leitor de telas), bem mais importante neste caso.  Também usamos essa “configuração” para gravar a sessão do participante que utilizava o ampliador de telas: descobrimos que o Morae Recorder não grava a tela ampliada, como vemos durante o teste, e sim a versão original, o que não dá a dimensão de como o usuário do ampliador enxerga de fato um site. Os vídeos foram mais difíceis de editar e não saíram “bonitinhos” como os do Morae, mas ainda assim foram extremamente úteis para ilustrar para o cliente quão diferente é a forma de os deficientes visuais usarem os sites. No final, ficou muito claro para nós e para o cliente como coisas simples – por exemplo, a falta de descrição nas imagens ou a falta de um título geral – mudam o entendimento de uma página, acabam com o contexto ou ocultam informações importantes! [divider type=”space”]

Participantes surdos

Ué, o site não tem som, então porque precisamos de participantes surdos? Basta eles lerem os textos, certo?!  Errado! Os surdos quase sempre são alfabetizados primeiro em LIBRAS (Língua brasileira de sinais), portanto o português é uma segunda língua para eles, bem menos utilizada no dia a dia. Daí a dificuldade de utilizar os sites, pois dependendo do nível de alfabetização em português, é como ler em francês: você pode até identificar uma palavra ou outra, mas torce pra ter figuras para entender o contexto e já abre o Google Translator. A questão é que não é tão fácil assim achar um tradutor automático de LIBRAS. “Eu aprendi como tirar um extrato no caixa eletrônico, mas ele é impresso e cobrado. Queria tirar pelo Internet banking, que é de graça, mas não encontro as coisas no site, e para cadastrar a senha eu preciso ligar lá… Como eu vou fazer?!” Acabamos descobrindo que, por essa diferença da língua, os surdos acabam formando uma comunidade própria, muito unida e até mesmo “fechada”, já que não conseguem conversar facilmente com quem não sabe LIBRAS. Essa dificuldade de comunicação se manifestou de várias formas ao longo dos testes:

  • O tradicional recrutamento por telefone não funcionou – por não se poder falar diretamente com o participante, era necessário que um parente ouvinte atendesse, entendesse de que se tratava o teste e traduzisse tudo para ele, mediando o processo. Muitas vezes esse “telefone sem fio” nem chegava a acontecer, pois os parentes tendem a protegê-los bastante. Por e-mail também não houve muito retorno, talvez por parecer spam ou por eles terem dificuldades de escrever a resposta em português. Só obtivemos mais avanços ao começar a explorar os contatos entre eles, com o auxílio da nossa tradutora, Andrea Venancino, que nos ajudou muito!
  • Descobri (da pior forma) que eu não sabia nem como cumprimentar o entrevistado… Sai a fala, volta a linguagem corporal! Alguém que saiba português e LIBRAS é essencial no teste, e devemos perguntar para o participante se ele prefere trazer um conhecido dele ou se devemos providenciar uma tradutora. É muito importante avisá-la de que durante o teste deve ser traduzido apenas o que for dito (de acordo com o roteiro, sem acrescentar mais informações) para não induzir o participante.
  • moderação do teste é bem mais complicada do que estamos acostumados, pois tudo o que eu digo e o que o participante diz tem que passar pela tradutora. Assim, é necessário prestar atenção em duas pessoas ao mesmo tempo para não se perder nada.
  • A câmera deve filmar o participante (e de forma a captar também seus gestos, além de seu rosto), mas o microfone tem que ficar perto da tradutora, que é quem vai nos explicar tudo o que está acontecendo! Como não tínhamos um microfone separado da câmera, o áudio acabou ficando muito baixo nos vídeos.
  • LIBRAS é estruturalmente diferente do português, não contém todos os sinônimos, formatos de orações ou tempos verbais. Assim, páginas com textos longos, sem informações-chave destacadas e sem imagens para contextualizar são muito difíceis para eles lerem e entenderem. O mesmo ocorre com vídeos que são legendados exatamente igual ao áudio perdido. É necessário simplificar o português ou incluir a tradução em LIBRAS.

No fim, saímos com a impressão de que para tornar um site acessível para deficientes visuais, há questões mais técnicas – de programação e design – para serem resolvidas, enquanto que para os surdos é necessário uma preocupação muito maior com o conteúdo em si – a forma de escrever, de sinalizar, de ilustrar – já que não há tantas ferramentas técnicas para ajudá-los. O aprendizado sobre estes “mundos diferentes” foi incrível para mim, assim como a possibilidade de abrir os olhos de outras pessoas – colegas e clientes – para o assunto.



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