Táxis, apps e transformação de um modelo de negócio

Vira e mexe a tecnologia prega uma peça em todo um segmento de negócios. Um exemplo bombástico recente é o das videolocadoras: se antes tropeçava-se em uma a cada esquina, hoje é difícil encontrar uma única que seja no bairro. Com o compartilhamento de filmes e seriados pela internet e o aluguel pela TV ou pela própria Web, o setor entrou em crise e foi minguando. Outro dia encontrei um casal de vizinhos no elevador com caixinhas da Blockbuster na mão e não pude deixar de me espantar: “Nossa, eles alugam filmes!”.

O que nos últimos meses tem chamado a minha atenção e de pessoas próximas é a proliferação dos aplicativos “de táxi”. Também, pudera, as vantagens do ponto de vista do passageiro são muitas: é rápido, uma vez que o sistema, através do GPS, procura o veículo mais próximo da sua localização; você não precisa ficar pendurado no telefone explicando o endereço, dando uma referência do local; não precisa anotar o modelo e a placa do táxi que vai vir te buscar, pois isso fica na tela do app, a seu alcance a qualquer momento (não que antes eu anotasse alguma coisa, o que sempre me fez ficar em dúvida se aquele de fato era o “meu” táxi); você pode ligar para o celular do taxista se precisar; dá para escolher a forma de pagamento; dá para acompanhar a movimentação do táxi pelo GPS e só ir para a rua quando o táxi efetivamente estiver lá; alguns apps permitem a escolha do tipo do carro, se tem ar condicionado etc. e ainda oferecem uma avaliação dos motoristas com base na opinião dos usuários. E, o melhor de tudo, tudo isso sem custo para o passageiro (para os taxistas, alguns apps cobram uma taxa em cima das corridas).

Homes dos aplicativos 99 Táxis e Easy Táxi
Homes dos aplicativos 99 Táxis e Easy Táxi

Como os passageiros aderiram em massa aos aplicativos, assim também fizeram os motoristas de táxi – bom, não dá pra dizer o que veio  antes, o fato é que o número de usuários dos dois lados aumentou bastante rapidamente. E isso está mudando a forma como eles se relacionam com seu “ambiente” de trabalho. Uma das principais vantagens que ouvi de alguns deles é que você não volta vazio de nenhum destino – antigamente, levar um passageiro até um bairro longínquo significava ter lucro só na ida; agora a probabilidade de conseguir corridas pelo caminho é muito maior. Já ouvi de um taxista que, se o ponto está muito parado, sem movimento, ele vai dar uma volta para trocar de localização e aumentar as chances de ser chamado pelos apps: certeza de sucesso.

Claro que nem tudo é perfeito. Em uma sexta-feira, às 18h, não é fácil achar um táxi em São Paulo, nem através dos apps. Depois de muito tentar e conseguir alguém para me buscar em uma rua do Alto de Pinheiros, tomei um belo cancelamento na cara, sem maiores explicações. Já no meio da rua, o jeito foi partir para o método tradicional e, depois de um tempo, um taxista parou. Conversa vai, conversa vem, descubro que ele vai trocar o celular por um smartphone só por causa dos aplicativos, que ele ainda não pode usar. Olha a indústria se movimentando…

Outro caso curioso: um taxista reclamou muito do 3G do aparelho dele – a conexão demorou tanto para “responder” que a corrida próxima a ele foi para outro motorista. Resultado: ele vai mudar de operadora.

Pela minha amostra totalmente aleatória de entrevistados, descobri que alguns usam até três apps, uma confusão de chamadas simultâneas caso eles se esqueçam de desabilitar todos os aplicativos quando conseguem uma corrida. Já um senhor contou que só tinha um, para testar e ir se acostumando, já que ele não era tão adepto de novas tecnologias. Mas mesmo ele, que se dizia inexperiente e receoso, topou a brincadeira por conta dos benefícios.

Parece que as associações de taxistas e as cooperativas estão se movimentando para não serem passados para trás na tecnologia – algumas já estão criando seus próprios apps e trabalhando o discurso da qualidade em se chamar uma empresa ao invés de se confiar em um aplicativo aleatório. Para elas, a vantagem econômica pode ser ainda maior: redução drástica de custos de call center. Em contrapartida, terão que oferecer algum benefício competitivo para o taxista associado, que agora tem à mão uma porção de alternativas mais baratas do que se cadastrar em uma cooperativa e ter que pagar uma mensalidade.

Resta saber quando as empresas de telefonia móvel vão perceber que um 3G (ou 4, que seja) de qualidade passou a ser um diferencial para inúmeros profissionais, de segmentos que nem se imaginava que já seriam tão “dependentes” de um aparelhinho de smartphone.



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