Affordance, brinquedos e o iOS7

Affordance é um dos meus conceitos de design favoritos. Meu primeiro contato com o termo foi no livro “O design do dia a dia”, Don Norman:

O Design do dia a dia – Donald A Norman

“Affordances provide strong clues to the operations of things. Plates are for pushing. Knobs are for turning. Slots are for inserting things into. Balls are for throwing or bouncing. When affordances are taken advantage of, the user knows what to do just by looking: no picture, label, or instruction needed.”

Não conheço uma boa tradução para o português, mas uma definição simples seria: a habilidade de um objeto sugerir como deve ser usado.

Coleção de botões por Dieter Rams para a Braun

Relembrei esse conceito recentemente vendo minha filha aprender a interagir com os objetos a sua volta. Ela não pode ver um interruptor que quer “cender” (acender) e “agar” (apagar) a luz. No elevador, os botões para a escolha do andar precisam ser apertados. Gavetas foram feitas para serem abertas. O brinquedo de encaixe é claro: cada casa tem uma forma correspondente e é uma grande diversão colocar cada coisa em seu lugar.

Caixa encaixa

Em projetos de flat design, é especialmente importante pensar na affordance. Nas interfaces digitais, as metáforas físicas – como texturas e sombras – têm sido usadas para ajudar o usuário a entender com o que ele pode interagir em uma interface. Criar um botão com relevo é uma forma de fazer com que ele pareça clicável. Em uma interface flat precisamos encontrar outros modos de explicitar essa função. Contexto e conhecimento prévio passam a ter mais importância nesse cenário.

Em dispositivos touchscreen o problema é mais complexo. Sem a ajuda da “mãozinha” do mouse fica ainda mais difícil saber o que é ou não clicável, e ações baseadas em gestos não costumam estar explícitas na interface.

Em um primeiro contato com o iOS 7 observei alguns pontos:

Slide to unlock: não é nenhuma novidade, mas a animação sobre o texto “Slide to unlock” passa claramente a ideia do movimento que deve ser feito para desbloquear o telefone. Na nova versão ela é mais sutil, mas continua cumprindo bem seu papel.

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– Ausência de botões: em diversos pontos da interface os botões sumiram. A tela para envio de mensagens é um bom exemplo. “Send”, “Message” e “Contacts” são apenas textos. Sua posição na tela é o que indica a função.

 

Calendário  IMG_2645

 

– Ações escondidas: tela de avisos, busca e dashboard só podem ser encontradas com gestos específicos, que precisam ser conhecidos previamente. A interface não dá nenhuma pista dessas ações.

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– Fechar um app: a forma de se fechar um app na tela que lista todos os aplicativos rodando também mudou. Antes era preciso pressionar algum ícone um tempo e depois clicar sobre os sinais de fechar que apareciam sobre cada um. Agora a interação é mais simples, basta arrastar a janela aberta para fora da tela. Nos dois casos o usuário precisa ter um conhecimento prévio, que não está explícito na interface, mas a mudança requer um novo aprendizado para quem já estava acostumado com o uso anterior.

Fechar apps

Tenho visto muitas críticas ao novo design. Mas eu, a bem da verdade, gostei do iOS7. As novidades, em mim, surtiram outro efeito: parece que eu tenho um iPhone novo, mesmo sem ter trocado de aparelho.

Vale uma reflexão sobre os impactos desse tipo de mudança em público que já está tão acostumado a uma interface. Será que podemos abandonar totalmente as metáforas do mundo físico? Já existe um outro tipo de affordance digital ou essa aposta vai gerar muitos problemas de usabilidade?

Bônus links:

 



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