Sobre prototipar, testar, e se livrar das ideias erradas

Por Letícia Pires

Nas últimas semanas fizemos uma bateria de testes em um projeto para uma organização de ajuda humanitária. Estamos reformulando o site deles. Avaliar as alternativas e ideias em protótipos – modelo que simula o site e geralmente é um esqueleto das páginas com algum conteúdo e links funcionando – é uma etapa fundamental dos projetos da Saiba. As conversas depois dos testes são sempre muito mais sólidas e assertivas. Nesse caso, nossa principal investigação era sobre o fluxo de doação, aquele que mantém a ONG funcionando. Na nossa avaliação, o fluxo era confuso e não funcionaria. Mas foi só testando que conseguimos identificar e avaliar o que não estava bom.

E é também vendo as pessoas usando o site que você projetou, falando daquele tema aplicado em suas vidas, que surge uma teia de insights. As ideias que vão reparar o que não está funcionando começam a pipocar. É mágico!

Tudo isso me faz lembrar de uma polêmica colocação de Steve Jobs sobre pesquisas com usuários. Uma grande provocação dessa figura inspiradora. Jobs afirmava que os usuários não sabiam o que queriam. E muita gente repete a afirmação sem entender o que, de fato, ele quis dizer (e usa como argumento para desqualificar a etapa de pesquisa ou para justificar a falta de investimento). A realização de pesquisas com usuários é uma parte intrínseca ao processo de design. Não porque o usuário vai te dizer o que quer. Mas porque você vai entender qual é o problema, qual o contexto, quais são seus desejos e necessidades. E, munido disso, vai propor interfaces, produtos e serviços mais pertinentes.

O usuário não sabe mesmo o que quer. Quem precisa descobrir, somos nós, designers. Então, prototipe e teste!

Lá no protótipo da ONG, vimos que se o usuário passasse antes pelo cardápio dos tipos de doação, ele se sentia mais seguro para efetivar a doação. Aqueles que caiam direto no fluxo de doação ficavam confusos, e alguns efetuaram a tarefa sem saber de fato o que estavam fazendo. A partir desse achado, incluímos o cardápio em outros lugares. As pessoas terão acesso a ele mais facilmente, o que potencialmente diminui a probabilidade de confusão.

Ainda sobre protótipos, vale muito a pena ler esse texto do Tom Kelley, da IDEO: Prototyping is the Shorthand of Design. Ele fala do valor de prototipar, como esse processo é rico para profissionais do cinema e empresas como a Amazon e a Apple. O melhor parágrafo é o “Shoot the bad ideas first”, em que Kelley fala sobre como prototipar é efetivo e eficaz para tirar as alternativas que não funcionam dos nossos projetos. Sabe aquela ideia com a qual você ‘encasquetou’. É ela mesmo que está te atrasando (risos). Outro belo trecho é “Prototyping is problem solving. You can prototype anything, a new product … what counts is moving the ball forward, achieving some part of the goal.”

Depois disso, você ainda não se animou?



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