Por que tem tanto AI/jornalista?

Essa era uma pergunta que eu me fazia quando comecei a trabalhar com arquitetura de informação – e lá se vão mais de dez anos. Eu, jornalista, percorri um caminho que para mim foi muito natural: de preenchedora de páginas e páginas de sites institucionais com textos sobre produtos, matérias e entrevistas a diagramadora dessas telas. Mas será que o que foi natural para mim explicava a entrada de outros jornalistas na área?

Já faz um bom tempinho também que vi no @blogdeai um retweet que me chamou a atenção: uma estudante de uma faculdade no Rio de Janeiro reclamava da disciplina que, para ela, tinha mais a ver com publicidade do que com jornalismo: Arquitetura de Informação. Depois que passou minha bronca pelo fato de ela não dar a mínima bola para a minha tão estimada AI, cheguei à conclusão de que, no lugar dela, eu pensaria a mesma coisa. Mas então por que raios tem tanto jornalista/AI no mercado? Simplesmente falta de vagas nas redações?

Quando um jornalista escreve uma matéria, nota ou reportagem, uma de suas preocupações é fazer com que o leitor as compreenda. Assim, o texto deve ser claro, antecipar e elucidar as dúvidas que o leitor possa vir a ter, destacar no título uma informação importante para chamar a atenção dele e por ai vai. Quando um arquiteto de informação planeja uma interface, ele também está pensando em várias dessas coisas: como fazer o usuário chegar à informação de que ele precisa, como deixar a página clara o suficiente para que ele compreenda a informação que está ali etc. O AI não apenas desenha a página; ele trabalha essencialmente com comunicação. Aqui, o leitor é o usuário.

Eu e colegas no laboratório da faculdade, diagramando um jornal - o começo da minha carreira como AI? (Crédito: Eduardo Hiroshi)
Eu e colegas no laboratório da faculdade, diagramando um jornal – o começo da minha carreira como AI? (Crédito: Eduardo Hiroshi)

Algum tempo depois de ter iniciado minha nova carreira, fui conduzir testes de usabilidade pela primeira vez. Desde o começo, a facilidade para mim foi muito grande: era como entrevistar alguém! E, de novo, a semelhança com o jornalismo: nada de induzir as respostas, hein! Claro que existem diferenças entre um tipo de entrevista e outra, como ter que observar com bastante atenção o que o usuário está fazendo na tela (não necessariamente igual ao que ele diz que está fazendo), mas que existe uma facilidade para quem vem do jornalismo, isso existe. E não só para os testes de usabilidade: imersão em empresas e entrevistas em profundidade são tipos de estudos que também se beneficiam das técnicas que os jornalistas aprendem a dominar no dia-a-dia da profissão.

Minha sócia Alessandra Nahra, também jornalista, costuma dizer – isso desde muito antes de storytelling ter virado moda – que uma interface tem que contar uma história; mais um ponto para o jornalismo.

Isso tudo responde um pouco a pergunta do título, mas não a insatisfação da estudante com a disciplina “marketeira”. Para ela, o que eu diria é que, antes de pensar na empresa dona do site, o AI pensa no usuário – como ele vai chegar mais rapidamente ao seu objetivo, não se perder ou ser enganado pela interface, aprender coisas novas online e por ai vai. É uma visão bem otimista e um pouco romântica talvez, mas é isso que nos move ao desenhar uma porção de telas. De quebra, a empresa dona do site ganha mais dinheiro, fica mais feliz e garante nosso salário no fim do mês.

Nos últimos anos, trabalhei com AIs de diversas formações – publicitários, engenheiros… Uma enfermeira! -, mas o mais surpreendente para mim foram os graduados na área, como quem cursou Design Visual no Senac, por exemplo. Quando eu comecei a fazer AI, nem sabia que isso tinha um nome! E agora se ensina AI/UX na faculdade… Com o avanço da profissão e a consolidação do mercado, a tendência é o surgimento de novos cursos. E talvez jornalista/AI seja coisa do passado… De velhinhas, como eu!


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Ana Coli

Escolhi o jornalismo como profissão, mas a vida me levou para outros caminhos. De redatora de matérias para portais online, passei a arquitetar as estruturas de interfaces digitais e, assim, conheci o mundo da UX. De uma profissão para outra, trouxe e mantive a paixão por entrevistar pessoas. E lá se vão 15 anos.

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