Testes contínuos x testes únicos

Em artigo publicado essa semana pelo site Userfocus, o pesquisador David Travis lista cinco questões polêmicas sobre testes de usabilidade – e polemiza ainda mais sobre elas. Uma, especialmente, me chamou a atenção: na impossibilidade de um processo iterativo contínuo, testar só uma vez é bom o suficiente. Melhor do que nada, afinal.

Ele contesta veementemente essa afirmação (tão largamente propagada, diga-se de passagem, inclusive por nós). Para ele, testes únicos e isolados, além de inúteis, prestam um deserviço. Segundo Travis, de nada adianta entregar uma lista de problemas e recomendações nas mãos dos gerentes e equipes de design, dar tchau e ir embora. É preciso garantir que os problemas sejam resolvidos, testar novamente, continuar aprimorando.

Quando se contrata apenas um teste, o vínculo entre a consultoria e a agência/cliente acaba após a entrega do relatório. A consultoria perde a oportunidade de acompanhar o projeto e a equipe de design considera que o “trabalho de UX” foi feito e fim. Nós, da Saiba +, ficamos acenando no porto, com aquele olhar de “vá com Deus, meu filho”, e o coração apertado de preocupação – porque não temos A MENOR IDEIA do que vai acontecer dali em diante.

Às vezes as recomendações são feitas e até voltamos a ser consultados (no melhor dos mundos, nos chamam para testar novamente). Mas, na maioria das vezes, a gente só fica sabendo o que aconteceu meses depois, no lançamento.

É claro que adoraríamos ter a oportunidade de acompanhar de perto um produto, não apenas a implementação dele, mas a evolução. Pegar na mão da equipe de design e dizer “tamo junto, filho”. Mas nunca conseguimos vender um projeto assim.

Por quê? Me perguntas. Eu vou tentar te responder.

A resposta começa óbvia: porque custa dinheiro. Testes contínuos parece que custam mais do que um único testezinho (o que nem sempre é verdadeiro) – geralmente recomendado pela agência para desencargo de consciência, para que conste “UX” no projeto, ou simplesmente para validar as brilhantes soluções apresentadas. Tem que ter, né? Usabilidade is the new black.

Mas um processo contínuo, que realmente faça parte do projeto, de maneira orgânica, é difícil de emplacar. Porque ainda é muito complicado, no nosso mercado, mostrar (e provar) o valor da UX.

As agências digitais, nos últimos anos, ajudaram a implementar a cultura de arquitetura de informação. Chegou um momento em que todas as agências têm um AI, e a maioria dos projetos contam com esse trabalho. AI e Axure viraram pacote básico da entrega de uma agência. No entanto, a entrega deste trabalho não evoluiu: o que todos querem é um wireframe especificado para ser colorido pelo designer e transformado em código pelo desenvolvedor. E só. A cultura de AI não evoluiu para uma cultura de UX. O wireframe é peça fundamental para aprovações do cliente, mas o cliente ainda tem dificuldade de entender o valor da pesquisa de usabilidade.

Talvez porque as equipes de design também não entendam muito bem o valor da UX. E muitos não querem se envolver no processo iterativo.

Temos um produto no catálogo da Saiba + que é um teste em protótipo cuja entrega não é um relatório. O processo envolve o cliente e a agência em duas baterias de testes, com todo mundo assistindo. Às vezes, alteramos alguma coisa no protótipo entre um teste e outro. No final das baterias, debatemos com a equipe de design (da agência e/ou do cliente) e decidimos o que será alterado no protótipo. O PPT é só para documentar, o trabalho mesmo é a observação, o debate e as alterações no protótipo.

Uma maravilha, todos ficam bem felizes. É um processinho iterativo rápido, custa menos que um teste com relatório completo, o produto é alterado NA HORA, muito antes de ir para o desenvolvimento. Amamos teste em protótipo!

Porém, em muitas ocasiões, nós não conseguimos mobilizar o cliente e nem a agência. Ninguém aparece para assistir aos testes e debater com a nossa equipe. Nós debatemos sozinhos, fazemos a lista de problemas e recomendações, enchemos o e-mail de esperançosos “tamo junto, viu, nos chamem!” – e esperamos sentados que alguma coisa aconteça.

David, não sei se um teste é pior do que nada. Por enquanto, um teste é tudo que eu tenho para conseguir propagar a cultura de UX dentro dos clientes e de suas agências.



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