Pesquisa e viés

O tema da UXPA Magazine desse mês é UX e a América Latina. Um dos destaques é um artigo sobre um teste de usabilidade em dispositivos móveis em São Paulo.

Já no primeiro parágrafo, Katie Mauck conta o quão insegura se sentiu durante a preparação de sua viagem ao país. Tomou diversas medidas de precaução, como comprar uma carteira que bloqueia ondas de rádio e se registrar em um programa de segurança para viajantes americanos no exterior.

Todo esse clima de medo não podia deixar de se refletir em seu trabalho: insegurança foi o principal achado do estudo. Segundo ela, no Brasil ninguém usa o celular em público e questões de segurança estão no topo das preocupações.

Em outubro, a Saiba+ conduziu um estudo de um aplicativo de cartão de crédito aqui em São Paulo. E, sim, a preocupação com segurança sempre surge, mas de forma modesta. O medo de ter o celular roubado está sempre presente, mas não impede ninguém de sair por aí tirando fotos ou enviando mensagens. A diferença de sermos pesquisadores locais é que não temos uma lente pré estabelecida que exacerba essa questão, e acaba ofuscando  achados mais sutis.

É claro que São Paulo ainda tem muito o que melhorar no quesito segurança. Nossos cartões de crédito têm senha para evitar fraudes. Usamos tokens para acessar o Internet Banking. A polícia local recomenda evitar o uso de celular em locais de grande movimento, como a avenida Paulista. Porém, um simples passeio pelo local evidencia: as pessoas acabam não ligando muito para essa recomendação.

Não conhecemos o público-alvo do estudo da pesquisadora ou informações como sua classe social. Mas se ela tivesse aproveitado sua viagem para ir a campo e andado de ônibus ou de metrô, poderia observar inúmeros passageiros papeando no WhatsApp, Facebook ou jogando no CandyCrush. Uma busca pela hashtag #metrosp no Instagram revela 21 mil publicações; #onibus tem outras 33 mil. Quer outro lugar movimentado e cheio de fotos? Procure por #25demarço (ou #25demarco): 17 mil publicações de selfies, multidões e quinquilharias de uma das ruas mais famosas da capital.

Mas, se eu tivesse sido alertada da maneira que Katie foi, provavelmente também teria ficado apavorada. E talvez não tivesse coragem de sair do laboratório de testes para andar pela rua. Por conta de um viés cultural, um estudo sobre pesquisa e diferenças culturais conseguiu ser vítima de si mesmo.

 


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