Tem uma ideia? Vá pra rua!

Branch

Imagine que você está em uma sala de cinema em 1998 e vê o seguinte anúncio:

O Blast Theory, que criou a ação de sequestro do vídeo acima, é um grupo que faz performances e intervenções artísticas questionando a relação entre o real e o ficcional, sempre com o uso de tecnologia. Através de jogos presenciais ou virtuais, seus trabalhos mexem com a percepção que as pessoas têm do mundo e de si mesmas.

O projeto “Kidnap” transmitiu durante 48 horas na internet o cativeiro dos dois “sequestrados”. Os “espectadores” podiam controlar as câmeras nesse período. Foi a primeira transmissão desse tipo de que se tem notícia: o Big Brother foi aparecer na TV da Holanda só no ano seguinte.

O projeto mais recente do Blast Theory é o aplicativo Karen, uma espécie de consultora pessoal, mas que em dado momento foge do controle: a Karen, que dá nome ao app e desde o começo mostra uma intimidade um pouco além do que se esperaria de um profissional desse tipo, passa a contar histórias sobre tudo – do ex-marido ao uso de drogas no passado. Em meio às conversas, o usuário tem que responder questões que vão desde se foi feliz na infância até com que blusa ela, Karen, deve sair. Karen fala por meio de vídeos bem produzidos e de alta qualidade, enquanto o usuário responde através de sliders, clicando em botões ou escrevendo, tudo muito intuitivo.

Toda essa introdução sobre o Blast Theory foi para contar que uma de suas fundadoras, Ju Row Farr, esteve no Brasil para liderar um workshop do Mesa & Cadeira do qual eu participei. Com o mote “How to Mobilize an Entire City”, o objetivo do workshop – ou mesa, como eles se autodenominam – era criar, desenvolver e lançar um produto novo em seis dias. Doze participantes das mais diversas áreas fizeram parte da mesa e o produto final foi um jogo de cartas, batizado de Branch, que possibilita compartilhar histórias – e sentimentos – entre jogadores.

Foi muito interessante acompanhar a evolução da mesa, que utiliza técnicas de Design Sprint no processo de co-criação. A própria Ju publicou em seu blog que estava vindo ao Brasil para fazer uma revista interativa. Com o passar dos dias, o conhecimento dos participantes e a experiência pessoal de cada um, o produto acabou se transformando no jogo, que pode ser baixado aqui.

Um dos aspectos decisivos da presença da Ju na liderança da mesa e que tem muita relação com o trabalho do Blast Theory é ouvir o público. Em dado momento, ela nos dividiu em duplas e mandou todo mundo para a rua, cada uma com um objetivo específico – observar, ouvir, interagir, entrevistas as pessoas.

Esse foi um dos meus principais aprendizados na mesa: embora eu fale aqui na Saiba+ o tempo todo da importância de ouvir o usuário, um aspecto diferente do trabalho da Ju foi ouvir o público muito antes de ter qualquer produto sequer esboçado. Então, se você tem uma ideia, o que posso te dizer é: vá pra rua! O tipo de interação que você terá com as pessoas pode ser gradual:

1) No primeiro dia, observe. O que as pessoas estão fazendo? Para onde estão indo? Elas param na rua por algum motivo? Elas falam com alguém? Olham o celular? Apenas observe e faça anotações.

2) No segundo dia, tenha conversas aleatórias, sem a obrigatoriedade de chegar a lugar algum. Troque ideias com o chapeiro, o jornaleiro, o vendedor, pergunte coisas pessoais, saiba como eles se sentem, do que precisam etc.

3) No terceiro dia, é hora de checar suas ideias. Aborde outras pessoas, converse um pouco e peça a ajuda delas em um estudo que você está fazendo. Cuidado para não fazer perguntas muito diretas. Por exemplo, se você teve a ideia de um aplicativo de saúde, é melhor perguntar se a pessoa faz exercícios ou cuida da alimentação e como faz o controle disso do que perguntar se ela usaria um aplicativo para isso. Perguntar quais aplicativos ela usa e porquê gosta deles também é um bom começo.

Com esses insights, você vai ter boa base para colocar suas ideias em cheque. Veja que é muito diferente de perguntar para amigos e familiares: seu círculo social possivelmente tem pessoas parecidas com você, da mesma classe social, com formação educacional que pouco difere da sua. Abordar estranhos na rua te dará uma nova visão sobre sua ideia porque parte de olhares com experiências de vida bem diversas – uma ótima maneira de dar seu pontapé inicial, seja em que direção for.


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Ana Coli

Escolhi o jornalismo como profissão, mas a vida me levou para outros caminhos. De redatora de matérias para portais online, passei a arquitetar as estruturas de interfaces digitais e, assim, conheci o mundo da UX. De uma profissão para outra, trouxe e mantive a paixão por entrevistar pessoas. E lá se vão 15 anos.

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