O que esperar de um teste de usabilidade

Teste de usabilidade

É sempre interessante observar a equipe de um produto se ajeitando na sala de espelho antes do início de uma bateria de testes de usabilidade. As pessoas estão invariavelmente animadas: é outro ambiente, diferente do escritório, tem comida (quem já veio na Saiba+ sente até saudades da salada de frutas da Antônia) e café, e elas vão, finalmente, ver um espécime de usuário real interagindo com a interface que planejaram.

Há também, no entanto, uma boa dose de ansiedade. Os designers temem ver seu trabalho detonado, a área de negócios se preocupa com a reação do usuário àqueles formulários enormes e termos de uso que precisam estar ali bem no meio do fluxo de contratação, marketing quer muito que as pessoas elogiem as fotos e cliquem nos banners. Quem já viu um teste de usabilidade, sabe: é bom chegar preparado para os socos no ego. O usuário não tem papas na língua, e vai se aproveitar daquela atenção toda para detonar qualquer coisa que ache ruim no serviço (mesmo que não tenha nada a ver com usabilidade).

Mas, afinal, o que se pode esperar de uma bateria de testes de usabilidade? A primeira coisa é baixar a expectativa. Não imagine que você vai sair de lá com todos os problemas resolvidos. Pelo contrário: se tudo der certo, você vai sair com mais problemas do que achava que tinha. Afinal, o principal motivo para se realizar um teste de usabilidade é justamente ver o que a equipe sozinha não consegue perceber.

Na primeira sessão, pode ser que o caos se instale e você queira arrancar os cabelos. Mas não se desespere: com a repetição dos testes, e das ocorrências, você vai começar a observar os padrões. A partir daí, vai começar a entender de fato o que causa o problema e – acredite – vai começar a vislumbrar as soluções.

Ou seja, não espere que o teste mostre o que deve ser feito. Um teste demonstra as dificuldades e os pontos críticos, fornece insumos para o entendimento dos problemas. Insumos que a equipe vai utilizar para propor as soluções.   

Por outro lado, pode ser que a interface esteja tinindo de linda e o designer saia dos testes feliz, vendo que a proposta foi validada, que está tudo certo. Ou, melhor ainda: está quase tudo certo e você descobriu que, com pequenos ajustes, ela pode ficar ainda melhor. Esse é o melhor dos cenários.

Como diz Christine Perfetti, da UIE (User Interface Engineering), neste artigo de Shannon Hosmer: “Algumas vezes os teste de usabilidade confirmam as suposições da equipe sobre como os usuários interagem com seu produto. Mas um resultado muito mais comum é ver os usuários experimentando problemas com o design e identificando furos nas suas propostas”.

Os testes de usabilidade podem mostrar, por exemplo:

– Pontos em que o usuário não consegue prosseguir em um fluxo – ou porque não encontra a saída ou porque não entende o que deve fazer

– Dificuldade em completar formulários – porque são longos, complexos, ou estão mal distribuídos

– Rótulos que escondem a ação ou enganam (não deixam claro o que acontece ali)

– Falta de adequação da linguagem visual ao perfil do usuário (usuário não “se vê” na interface)

– Inovações na interação que não estão sendo identificadas pelo público

– Detalhes aparentemente insignificantes (para a equipe) que causam irritação, transtorno ou mesmo impossibilidade de completar tarefas

Observar usuários também pode ocasionar insights de natureza mais grandiosa – e levar a equipe a questionar o produto, o fluxo, a plataforma, e até repensar todo o projeto.

Em resumo, o que esperar de um teste de usabilidade? Não espere sair com soluções prontas. Mas pode esperar ser surpreendido.

 


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Alessandra Nahra

Escrevo, cuido de bichos, danço, cozinho, planto e tento ser amável com todo mundo.

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