UXLx e o lugar do designer no mundo

De 24 a 27 de maio, o UXLx, uma das conferências de usabilidade mais importante do mundo, reuniu profissionais de diversos países na cidade de Lisboa para debater sobre práticas e tendências da área. A sétima edição do evento, com duração de quatro dias, recebeu nomes como Amber Case, Giles Colborne e Alan Cooper – que encerrou o terceiro dia do encontro com uma palestra para lá de inspiradora.

Se um dos grandes temas do momento é a relação do homem com a tecnologia e para onde isso vai nos levar, Amber Case trouxe o assunto para o UXLx sentenciando: já somos ciborgues. Para ela, um dos exemplos mais claros é como o smartphone se tornou uma extensão de nossos corpos: não nos separamos dele, tomamos vários cuidados com o aparelho e o alimentamos uma ou mais vezes por dia, como um Tamagotchi do século XXI (se você nasceu depois de 1990, veja aqui o que é um Tamagotchi).

Mas Case não falou sobre homem X máquinas, futuros distópicos ou episódios de “Black mirror”. Autora do livro “Calm Technology”, a preocupação dela é como lidar com as novas interfaces de tantos wearables e “coisas” (IoT) que estão surgindo. Case ressaltou a importância de introduzir novidades aos poucos; do contrário, as pessoas se apavoram e rejeitam a inovação.

Outro conceito muito em voga nesse momento de boom das startups, o MVP (mínimo produto viável, na sigla em inglês), foi o tema da fala de Melissa Perri. O interessante da palestra da UX designer foi sua surpresa ao constatar que boa parte das pessoas com quem ela trabalhou recentemente desenvolveu um verdadeiro horror ao termo “MVP”. A culpa disso? Projetos mal executados, em que o MVP era simplesmente uma versão reduzida do produto final e não um laboratório de testes, aperfeiçoamento e, por que não, uma possibilidade de mudança de rumo do produto.

Entre as citações de Perri, uma de Eric Ries, autor de “The Lean Startup”, ressalta a importância de o MVP coletar feedbacks dos usuários. O MVP é uma oportunidade de ouro, um ambiente de testes onde os empreendedores terão contato direto com seus clientes, entendendo o que deu certo e o que não deu, descobrindo o que está faltando etc. Ed Catmull, presidente da Pixar, corrobora a tese da importância da experimentação: “Se nós soubéssemos como isso iria terminar, simplesmente iríamos direto ao ponto”.

E claro que houve a palestra polêmica – e não foi a do Alan Cooper! O UX designer Per Axbom falou sobre a importância da fricção e logo mandou um “a consistência é superestimada” – isso logo após a palestra de outro designer, Adam Connor, ter abordado princípios de design, padrões e justamente ela, a consistência. Axbom evocou a responsabilidade do UXer, coisa que Cooper reforçaria no final do dia. De que adianta levar os usuários a comprar com um clique se eles não estão felizes no final? Parar, pensar e questionar pode levar a decisões mais corretas.

O UXer sempre se coloca como o advogado do usuário, mas será que é mesmo? Quantas vezes não estamos desenhando caminhos que levam para um conversão rápida sem deixar claro as consequências das tomadas de decisão? O mais rápido é melhor para quem, afinal?

[A respeito da fricção, a Ale Nahra já tinha contado aqui sobre uma palestra com o tema que ela viu no SxSW desse ano. O Steve Selzer, do Airbnb também acredita que exista a fricção para o bem.]

A pregação de Cooper

“Não é sua culpa, mas é sua responsabilidade” foi uma das frases ditas com muita ênfase por Alan Cooper. Em “Ranch Stories”, um dos ícones do mundo da UX contou sobre sua vida atual em uma fazenda. Fez uma apologia da agricultura orgânica, condenou os gigantes da indústria alimentícia e os agrotóxicos e, disso tudo, tirou um link com nossa indústria: “Duas coisas devem servir as pessoas primeiro: comida e software”.

Daí para a frente, foi um desfile de frases vai-lá-e-transforma-o-mundo. Coisas que faz tempo que eu não ouvia e que o dia a dia vai matando aos poucos dentro de nós. Foi uma delícia escutar: “Se sua empresa está nessa só pelo dinheiro, então você deveria procurar uma empresa melhor”. E instigou todos à rebelião: sua empresa não fala com os usuários? Fale você! Quando seu chefe vier perguntar, conte que você já está falando e se ele não gostar, diga: “Me demita!”

Sem dúvida, é o tipo de ousadia de que o mundo precisa e não mais um MVP cujo único objetivo é deixar seus investidores ricos. Bons produtos, boas experiências, pessoas felizes. Entendi a fala de Cooper (e mesmo de Axbom e outros palestrantes do dia) como uma convocação: UXer, ocupe seu lugar. É você que deve lutar pelo que é certo nesse mundo doido de ciborgues.

 

Para ver a cobertura completa do UXLx, com slides das apresentações e entrevistas com os palestrantes, acesse o Twitter oficial do evento.


, updated on

Ana Coli

Escolhi o jornalismo como profissão, mas a vida me levou para outros caminhos. De redatora de matérias para portais online, passei a arquitetar as estruturas de interfaces digitais e, assim, conheci o mundo da UX. De uma profissão para outra, trouxe e mantive a paixão por entrevistar pessoas. E lá se vão 15 anos.

comente