Chile, 10 anos depois – ou como foi o ISA16

“Como podemos desenhar ambientes digitais que se mantenham íntegros a logo prazo?”

 

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Com essa pergunta, Jorge Arango deu o tom de sua fala no ISA16. Arquiteto de formação, projetava casas e prédios antes de migrar para o digital. Uma casa é feita para durar anos. Já um site está (ou ao menos deveria) em constante evolução. Como deixar pegadas em um meio tão transitório?

Há dez anos fui ao Chile pela primeira vez.

Coloquei meus (novíssimos) cartões Moo na mala.

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Fiquei encantada com a vista da cordilheira da janela do avião.

Me apaixonei no primeiro gole pelo suco de framboesa <3.

Suco de framboesa

E participei do primeiro evento sobre Arquitetura de Informação na América do Sul, o IA Retreat organizado por Javier Velasco, no qual conheci Jorge Arango.

Era minha segunda conferência sobre AI – a primeira havia sido o IA Summit de 2006. Em dois dias, discutimos projetos recentes, metodologias, frameworks. Tags e sistemas de classificação abertos eram uma grande novidade.

Algumas palestras ainda se mostram incrivelmente atuais: Peter Merholz apresentou o case do redesenho de uma biblioteca física – um dos primeiro exemplos que conheci de design de serviços – e Peter Morville falou sobre a relação entre arquitetura de informação, estratégia e negócios.

Ao final do evento, Jorge Arango nos fez uma provocação, criando uma capa local para o famoso livro do urso polar:

Information Architecture for Latin America

Ele queria mostrar o longo trabalho de fundação que tínhamos pela frente. Nosso mercado estava apenas começando, era fácil perceber a diferença de maturidade em relação aos EUA.

Em 2006 ainda não havia iPhone. O grande case da Apple era o iPod e a transformação do mercado de música digital. Eu tinha 26 anos, trabalhava como arquiteta de informação há três, e me inspirei para fazer esse trabalho de formiga. No ano seguinte, organizei o EBAI – Encontro Brasileiro de Arquitetura de Informação –, primeiro evento da área no Brasil, que ajudou a fortalecer a comunidade por aqui.

 

Dez anos depois, a cordilheira continua encantadora e o suco de framboesa ainda reina no meu coração. Mas já não uso cartões impressos, o termo arquitetura de informação caiu em desuso (cresceu e virou uma família, que inclui experiência de uso, design de interação, e primos como design thinking e design de serviços) e a prática na América Latina se desenvolveu muito. As interfaces que projetamos evoluíram e ganharam novos formatos. A importância delas no nosso dia a dia só cresceu.

Mas é interessante notar que o cerne de vários dos problemas que enfrentamos permanece: como integrar as visões de produto, clientes e tecnologia? Que processos de trabalho trazem os resultados esperados? Como mostrar o valor de negócio do nosso trabalho e ter um impacto maior na estratégia das organizações?

No ISA 2016, equipes in house tiveram um lugar de destaque.

Co-criação, responsabilidade social, diamante duplo, slides com vídeo de fundo, Jobs to be done, propósito, terremoto e velocidade, estratégia poderiam fazer parte de um bingo do evento.

Vimos alguns estudos de caso interessantes, como o trabalho do Laboratorio de Gobierno de Chile, apresentado por Juan Felipe López, que mostrou iniciativas de co-criação entre população e governo – uma delas culminou no projeto da nova conta de luz do país – e o processo de trabalho na intersecção entre design e medicina apresentado por Laura Martini.

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Ellen Kiss, a representante brasileira nos keynotes, falou sobre o processo de transformação digital pelo qual o Itaú vem passando, mostrando que inovação não pode ser o trabalho de um departamento só, e sim um esforço contínuo e orquestrado de todas as áreas.

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Renato Verdugo apresentou uma visão sobre o processo de pesquisa com usuários no YouTube, onde as barreiras entre pesquisador, entrevistado e equipe foram eliminadas, tornando a pesquisa um processo de imersão ou de co-criação com o público.

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Molly Nix falou sobre o processo de pesquisa e design no Uber. No fim de sua palestra, a pergunta inevitável da audiência: “o que ela tinha a dizer sobre a relação do Uber com seus motoristas?”. Ela respondeu que queria justamente mostrar outro ponto de vista para essa polêmica – a equipe de design vê nos motoristas parceiros e se preocupa genuinamente com suas necessidades de uso da interface.

Um primeiro olhar pode achar essa uma boa saída para a saia justa. Mas será que, nesse exemplo, a co-criação é realmente um meio para o bem-estar do motorista? A quem mais interessa diminuir a fricção causada pela interface do aplicativo?

Essa pergunta deu o tom para a fala de Alan Cooper, que fechou o evento. Ele fez um paralelo entre sua experiência de vida como fazendeiro – há cinco anos ele saiu do dia a dia de sua consultoria e foi morar em uma fazenda na Califórnia – e a indústria de software. Cooper criticou duramente a forma como grandes corporações – sejam elas de alimentos ou software – se distanciam das necessidades reais das pessoas e focam apenas no lucro a curto prazo. O lucro deveria ser uma consequência da qualidade.

“Software is eating the world”

Ele partiu da citação de Marc Andreessen para mostrar a importância do papel do designer no mundo de hoje – e no do que estamos ajudando a construir. Mais do que pensar na influência do design na estratégia de negócios, Cooper nos convida a ponderar sobre o impacto do design na estratégia da vida.

Seria essa a integridade buscada por Arango?

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Dez anos depois, a entrega final do meu trabalho mudou radicalmente. A forma como chego nos resultados foi sendo alterada pouco a pouco. A curiosidade e vontade de continuar aprendendo – e mudando – permanecem firmes e fortes.

E o suco de framboesa continua incrível.

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PS: Também deu tempo de falar um pouco do que aprendi sobre resultados de testes de usabilidade nesse tempo.

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